Não é incomum clientes e amigos me perguntarem se o “jeito certo” de se beber café é sem açúcar. De fato, há uma tendência em se achar que quem sabe tomar café não costuma adoçá-lo, assim como um grande entendedor de vinhos não costuma optar pelos doces, priorizando o consumo dos secos. Mas café sem açúcar não é só para especialistas.
Como já falamos aqui, a cafeína é uma substância amarga, e como qualquer outro produto com esta característica, tende a causar repulsa e caretas em quem os consome. O amargo não é um sabor fácil de se adaptar e exige paladares maduros.
Historicamente, adoçamos a bebida pois consumimos muito café do tipo tradicional, que tem sua torra muito elevada para esconder defeitos dos grãos e é essa queima excessiva que vai conferir um amargor indesejado para o café.
Cafés especiais possuem uma complexa gama de sabores e uma inconfundível doçura, garantidos pelas torras mais brandas e delicadas, e merecem ser experimentados sem o açúcar, que vai acabar mascarando essas características e tornando imperceptível a doçura natural da bebida. Se depois disso você ainda não gostou, adoce, mas certamente você vai precisar de menos que antes.
Para mim, o jeito certo de se beber café é aquele que agrada mais a cada indivíduo, na boca, tornando o momento, o ritual, mais prazeroso.
Cup Tasters, ou provadores profissionais de café, não podem usar açúcar para não esconderem todas as notas sensoriais que precisam ser destacadas na análise de uma extração, mas até mesmo você, que bebe café em sua casa ou escritório, na cafeteria, no restaurante, com amigos ou familiares, deve fazer a aposta e dar uma chance a uma prova diferente, afinal, não é à toa que amargo começa com “amar”.
Daniel Coli
para caderno Degusta do EM

